Pelé, o beabá do beabá e o elefante na sala (de aula)
Como alfabetizar crianças e (não) fazer amigos
Muita gente conhece os gols geniais que Pelé fez, e mais ainda alguns que ele não fez, mas nem todo mundo sabe que ele tinha um lado compositor, e que gravou até com Elis Regina (com resultados duvidosos, é verdade). Sua canção mais conhecida, porque lançada num disco do grupo infantil Trem da Alegria em 1985 e reaproveitada para uma campanha do MEC em 1997, tem como tema a educação. O refrão é bem simples:
ABC
ABC
Toda criança tem que ler e escrever
Os últimos dados do Índice Criança Alfabetizada, do MEC, mostram que a preocupação do Rei segue atual: 41% das crianças brasileiras não estavam alfabetizadas ao final do segundo ano em 2024. Esta pode inclusive ser uma estimativa otimista, pois a régua de proficiência do índice é considerada pouco exigente por especialistas.
Nesse contexto, aplicar as melhores evidências científicas sobre como alfabetizar deveria ser uma preocupação central da nossa política educacional. Especialmente no âmbito do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, criado pelo atual governo e construído a partir de princípios importantes, como a criação de um índice nacional para mensurar a alfabetização, com metas para Estados e Municípios, e recursos para a formação de professores e material didático complementar.
Foram muitos os avanços, nas últimas décadas, da psicologia cognitiva, da linguística e da neurociência para explicar como o cérebro aprende a ler e quais práticas de ensino tendem a ser mais efetivas na alfabetização. Esse conjunto de conhecimentos, às vezes reunido sob a rubrica da “ciência da leitura”, sustenta, com base em inúmeros estudos empíricos ao redor do mundo, que a leitura se dá pela interação entre habilidades de decodificação e compreensão, uma reforçando a outra. Além disso, dado que a leitura, ao contrário da fala, não se desenvolve de forma “natural” ou espontânea, os currículos devem tratá-la como uma competência composta por habilidades que precisam ser explicitamente ensinadas, com ênfase em consciência fonológica, instrução fônica explícita, fluência, vocabulário e compreensão.
Não faltam exemplos concretos da aplicação desses conhecimentos: no Reino Unido, a política educacional, a partir do Rose Report de 2006, consolidou o ensino de systematic synthetic phonics nas escolas. Na França, desde 2018 orientações oficiais para o 1º ano descrevem uma abordagem estruturada articulando decodificação e compreensão, incluindo instrução explícita das relações fonema-grafema. E nos Estados Unidos, são temas discutidos desde o National Reading Panel nos anos 1990, e desde 2013 dezenas de estados aprovaram leis ou adotaram diretrizes de “science of reading” , com casos de sucesso importantes como o do Mississippi, que discutimos em post anterior. Em Portugal, as aprendizagens essenciais no primeiro ano incluem consciência fonológica e identificação de fonemas.
A pesquisa não se limita aos países desenvolvidos. Neste mês, uma síntese muito interessante deste campo de conhecimento foi publicada pelo Unicef, Banco Mundial e FCDO: o relatório Effective Reading Instruction in Low-and Middle-Income Countries: What the Evidence Shows. Reunindo evidências de 151 estudos, o relatório indica que desenvolver a competência leitora exige o ensino direto e sistemático em seis frentes: compreensão oral, consciência fonológica, instrução fônica explícita, leitura fluente, compreensão leitora e escrita. Há exemplos interessantes oriundos de várias partes do mundo em desenvolvimento.
Nesse sentido, é desanimador consultar os documentos pedagógicos que estão sendo produzidos no Brasil no âmbito da iniciativa de alfabetização do MEC para a formação de professores nas redes de ensino, e formam o eixo central da estratégia de formação do Compromisso Nacional.
Logo no fascículo de apresentação do documento Alfabetização contextualizada e reflexiva: Percurso Formativo para 1º e 2º Anos, lançado esse ano, encontramos entre as premissas do trabalho que “o que possibilita aprender de forma pertinente e com sentido é a interação com a língua e a linguagem, não o contato com letras e sons isolados”, como se as duas dimensões fossem mutuamente excludentes.
Mais abaixo, temos também a afirmação de que “ler não é decodificar sons, é construir sentidos utilizando diferentes estratégias de leitura” - de novo, uma falsa oposição. Mais adiante, as autoras usam uma citação que critica “a insistência em ensinar de forma explícita e sistemática a correspondência fonema-grafema” e afirmam que “nos materiais deste Percurso Formativo, não há qualquer tipo de exercício para “treinar” a consciência fonológica”, pois “não nos parece possível ensinar diretamente ou treinar o que é do âmbito da consciência”(!). Premissas opostas ao as evidências tem mostrado há décadas.
Ao longo do material não há sugestões de atividades relacionadas à decodificação, que ajudem os alunos na identificação de fonemas ou promovam um ensino explícito das correspondências entre sons e escrita. O que se vê são diversos exemplos de atividades em que os professores expõem os alunos a uma palavra escrita e os convidam a adivinhá-la, muitas vezes dando dicas e apoios, para que os alunos desvendem, formulando hipóteses, os segredos da linguagem , num processo dedutivo e de descoberta (do tipo “em qual dessas etiquetas está escrito TESOURA?"). Esse tipo de abordagem, que nasce da visão construtivista do aluno como sujeito do processo de aprendizado, é comprovadamente ineficaz para alfabetizar crianças, em especial aquelas mais vulneráveis, pois impõe ao aluno uma carga cognitiva excessiva e desnecessária, como demonstrado por inúmeros estudos empíricos. Nos EUA, a educadora Lucy Calkins, da Columbia University, que já foi a mais popular defensora desse tipo de método no país, se retratou publicamente no ano passado pela adoção dessas estratégias e reescreveu seus materiais para incorporar a instrução fônica explícita.
A maior especialista em alfabetização do Brasil, Magda Soares, que infelizmente nos deixou no início de 2023, já antecipava esse problema há vinte anos atrás:
No entanto, o foco no processo de conceitualização da língua escrita pela criança e a ênfase na importância de sua interação com práticas de leitura e de escrita como meio para provocar e motivar esse processo têm subestimado, na prática escolar da aprendizagem inicial da língua escrita, o ensino sistemático das relações entre a fala e a escrita, de que se ocupa a alfabetização, tal como anteriormente definida. Como consequência de o construtivismo ter evidenciado processos espontâneos de compreensão da escrita pela criança, ter condenado os métodos que enfatizavam o ensino direto e explícito do sistema de escrita e, sendo fundamentalmente uma teoria psicológica, e não pedagógica, não ter proposto uma metodologia de ensino, os professores foram levados a supor que, apesar de sua natureza convencional e com frequência arbitrária, as relações entre a fala e a escrita seriam construídas pela criança de forma incidental e assistemática, como decorrência natural de sua interação com inúmeras e variadas práticas de leitura e de escrita, ou seja, através de atividades de letramento, prevalecendo, pois, estas sobre as atividades de alfabetização. É, sobretudo essa ausência de ensino direto, explícito e sistemático da transferência da cadeia sonora da fala para a forma gráfica da escrita que tem motivado as críticas que atualmente vêm sendo feitas ao construtivismo.
A questão dos métodos de alfabetização se tornou, de alguma forma, o elefante na sala da política educacional, uma questão premente que a maior parte dos especialistas evita tocar, dado o caráter intenso e emocional das disputas do campo. O último embate se deu no contexto da Política Nacional de Alfabetização (PNA), decretada pelo governo Bolsonaro, que corretamente trazia premissas da ciência da aprendizagem contemporânea, mas naufragou pela sua desarticulação com o sistema educacional brasileiro, seu caráter impositivo, e a natural desconfiança que o extremismo do governo inspirava na comunidade educacional e científica.
Não há dúvida que seria um retrocesso retornarmos às práticas tradicionais pré-anos 1980, adotando materiais do tipo cartilha Caminho Suave - maçantes, com textos de baixa qualidade, sem nenhuma relação com o contexto real da vida do aluno e com os usos sociais da linguagem. Ocorre que essa caricatura - que é o que as pessoas tem muitas vezes em mente quando usam a expressão “método fônico” - não pode ser um impeditivo para que nossos métodos de alfabetização se atualizem, incorporando o que as evidências científicas tem trazido, há décadas, sobre as práticas mais efetivas para alfabetizar crianças.
Vale consultar as obras e assistir aos vídeos da Magda Soares, onde ela expõe estratégias lúdicas e inteligentes para incorporar a instrução fônica explícita sem tornar o ensino maquinal ou burocrático, e sem perder de vista a importância do letramento, ou seja, da imersão nas práticas sociais de leitura e escrita, sempre informada por insights que vem da tradição construtivista. Sua obra, que buscou compatibilizar essas duas orientações e superar a chamada “guerra de métodos”, deveria nos inspirar a seguir atualizando nossas concepções, incorporando o novo conhecimento científico da área e abandonando crenças obsoletas, para que nossas crianças tenham de fato o direito de aprender a ler e escrever garantido, como queria o Rei Pelé.
É isso, ou seguirmos fazendo gols contra na alfabetização.



Adorei o artigo Daniel.
Um complemento: para quem tiver interesse em saber mais sobre o caso da Lucy Calkins nos EUA, indico o podcast “Sold a Story” https://features.apmreports.org/sold-a-story/